
Acordei já tarde, era um dia diferente, o sol batia com mais força no vidro do quarto, parecia estranhamente mais brilhante... Lembro-me como se fosse hoje, parecia que havia mais luz, que as cores estavam mais vivas. Calmamente, como normalmente aliás, fui-me arranjando, ligo o rádio, esquisito, hoje passam mais músicas para além das que a playlist determina, entretanto ouço as notícias e estranhamente não há desastres, não se fala em crise, parece que há uma visita de um qualquer chefe de estado, vem-se encontrar com o primeiro-ministro, nada de especial. Quando volto ao quarto praticamente arranjado lembro-me de ver o telemóvel, chamadas não atendidas ou mensagens, parece que nada. Bem pelo menos também não há más notícias.
Já pronto pego nas chaves e saio de casa, a rua está vazia, será que foi tudo fazer uma “escapadinha”? Passo pelo quiosque para comprar uma revista, trivialidades, em seguida um café. Sento-me por instantes, parece tudo tão estranhamente calmo, pago o café e lá deixo a gorjeta na esperança de que no dia seguinte o sorriso do empregado se mantenha.
Faço um pequeno passeio, aproveito o lindo dia para reflectir um pouco na vida as coisas não têm corrido bem, num pequeno espaço vejo um típico homem de negócios ao lado de um bando de “manos”. Acho curiosa ali a junção dos dois mundos, em que perspectivas diferentes de vida se cruzam em função do mesmo sol que todos que não parecem dispostos a perder. Penso no futuro será que dali a algum tempo serei o típico homem de fato e gravata a usufruir o casual day com a minha mulher, ou estarei a comprar o Jornal de Notícias só para ver os classificados e já agora para coleccionar qualquer coisa que é sempre muito interessante nos primeiros quinze dias, e que acaba invariavelmente guardado a apanhar pó. Será que os meus problemas de relacionamento com o sexo feminino me vão levar ao ponto de ser mais um praticante daquela modalidade tão masculina de “ir às gajas” tentando exibir todo o potencial de testosterona existente em mim? O que vai ser afinal a minha vida? Volto para casa sem respostas. Ainda é cedo, mas a fome já aperta, já se sente aquele nervoso miudinho o tempo não passa... Vou almoçar, os dotes culinários não são propriamente os melhores, mas a lasanha pré-congelada estava divinal, aqueles tipos da Iglo têm mesmo jeito para cozinhar. O Microondas deu uma ajuda... Bem lá vou eu para o momento do dia, ainda penso em passar por um florista para comprar qualquer coisa que salte à vista, oh mas parece que isso já não se usa, agora qualquer coisa que não sejam jóias ou telemóveis ou que custe menos de 100 euros é ridículo. Bem esquecemos as flores portanto.. Bem, também não, um ursinho a dizer “I love you” é capaz de deitar tudo a perder, pronto sem presentes, e é melhor despachar-me porque senão ainda chego atrasado e não se faz esperar uma senhora.
É inevitável aí estão os suores frios, as voltas no estômago, as mãos a tremerem, e ainda por cima parece que não estão bem em nenhum lado. Chegado ao ponto de encontro não a vejo, boa cheguei primeiro, sento-me e enquanto espero penso naquilo que lhe vou dizer, ainda que saiba que a conversa vai invariavelmente ser diferente daquilo que estou a pensar. Já distraído sinto um mão nas costas, viro-me e ali está ela. Deslumbrante, talvez a vez em que ela estava mais bonita, ou talvez fosse só impressão minha. Cumprimentámo-nos e fiquei imediatamente sem saber o que dizer, parece incrível tanto tempo a pensar no que lhe havia de dizer e passados poucos segundos já não sabia. Fomos passear um bocadinho. É impressionante, cada palavra que ela dizia parecia hipnotizar-me, os seus olhos parece que são calmantes, inteligente, meiga, sensível, simplesmente genial.
Não conseguia resistir mais, tinha que lhe dizer. Dizer-lhe o quanto gostava dela, dizer-lhe o quão especial ela é. Como é tão doce, tão... amiga.
Eis senão quando tudo se desvanece, um ar sério faz-me antever a resposta. Tudo acaba ali, todas as ilusões, a pergunta salta, afinal qual foi o erro?
Desde então o relacionamento não tem sido fácil. Com ela, e com a vida. Como será encontrarmo-nos com a vida?